sexta-feira, 21 de maio de 2010

O pior dos pesadelos

Eu tive um pesadelo horrível. Sonhei que acordei presa num corpo que falava e andava. Fui obrigada a viver anos dentro dele. Como não havia outro jeito, acabei me acostumando, até que descobri o pior. Aquele corpo era provisório assim como todos os outros que vagavam comigo. Cedo ou tarde, ele desapareceria. Simplesmente deixaria de existir. Eu sofria sem saber qual seria o meu destino.Surgiria em outro corpo? Não surgiria nunca mais?
O mundo onde eu vivia era todo efêmero. Assustador. Tudo e todos estavam com os dias contados. Só que os outros agiam como se nada soubessem. Fingiam não saber. Talvez não soubessem. Eu tentava avisar mas era difícil...acho que eles só estavam tentando se distrair. Até inventavam algumas explicações para a situação... fábulas sobre um céu e inferno, histórias de um ser todo poderoso...
Eu estava completamente sozinha.Desajustada,perdida.E apesar do cenário confuso e hostil, aquele mundo era tudo o que eu tinha e conhecia. O pesadelo me fazia sofrer mas, uma vez nele, o meu maior medo era acordar.

sábado, 24 de abril de 2010

Da minha viagem a Portugal


O que mais me incomoda nas religiões é a falta de religião delas. Muito comércio, muito cenário, pouca elevação.E essa obsessão por impor uma fé inabalável que tenta subtrair o nosso direito de duvidar. "Duvido,portanto penso", já disse o poeta português. Duvidar é um dom,um sinal da inteligência. E isto pode ser sagrado. Agir como tolo e tentar minimizar a complexidade do universo não pode ser algo sagrado.
Nossa Senhora de Fátima apareceu para três pastorinhos, contaram-me os fiéis a caminho do santuário,com tanta certeza como se tivessem também visto. Será mesmo?Como sabem? Então crianças não fantasiam? Não mentem? Não podem nem mesmo ter ilusões de optica? O que pretendia Nossa Senhora de Fátima ao aparecer numa árvore aos pequenos Jacinta, Francisco e Lúcia? Pensava eu só comigo. Não pude perguntar ou apenas compartilhar meus questionamentos sem ofender os cristãos presentes. Pensar é feio. Deve ser pecado.
Mais emocionante foi, ainda no mesmo país, conhecer o túmulo de Fernando Pessoa no belíssimo Mosteiro dos Jerônimos. Quase me senti uma peregrina como os católicos em Fátima. Que minha devoção seja pela arte, sensibilidade, talento, criatividade, pela inteligência humana acima de todas as coisas. Que se construa um santuário para Fernando Pessoa! E então, só assim, poderão chamar-me religiosa.


"A certeza, isto é, a confiança no caráter objetivo das nossas percepções, e na conformidade das nossas idéias com a realidade ou a verdade, é um sintoma de ignorância ou de loucura. O homem mentalmente são não está certo de nada,isto é,vive numa incerteza mental constante; quer dizer, numa instabilidade mental permanente; e, como a instabilidade mental permanente é um sintoma mórbido, o homem são é um homem doente."

Fernando Pessoa - Idéias Filosóficas

domingo, 11 de abril de 2010

No Meu Universo Particular

Às vezes me dá uma preguiça de viver. Vontade de me ajeitar no quentinho da cama até o dia amanhecer. Por dentro brigo com dragões e anjos. Lá fora é só o São Paulo contra o Santos. Fecho os olhos. Sou eu, ele, um castelo e um cabernet. Abro os olhos. Só eu, ele, uma itaipava e a tv. No meu mundo ele me chama de meu amor. Na minha orelha ele só grita, vamo tricolor!
Da janela vem um dia nublado. No meu leito é só o sol ardendo pelo meu corpo malhado. Tem gente que diz que o importante é viver.Mas nem sempre entendo para quê.
Por que me aprisionar nesse presente, se eu posso ser ainda mais feliz na minha mente.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Um Brinde ao Lado B

Foi um dia qualquer de chuva que me fez refletir sobre minha família. E uma sensação de gratidão invadiu minha alma. Meu pai sempre bebeu e fumou como se não houvesse amanhã. Além de pregar aos quatro ventos que criança precisa apanhar para aprender. Minha mãe nunca preocupou-se com alimentações equilibradas. Meu avô falava a verdade sem limites. Muitas vezes atingindo os sentimentos alheios como uma metralhadora. Já minha avó ensinou-me que o importante mesmo é alegrar os outros. Pode-se mentir deslavadamente desde que se mantenha o interlocutor agradado. Fora os outros integrantes como tios que orgulhavam-se de feitos como votar no maluf e ganhar dinheiro no pôquer. Que tempos bons!Quantas lições! E, acreditem, eu não estou sendo irônica. Que educação boa que eu tive!Todos livraram-me do politicamente correto. Algo raro nos tempos atuais. Hoje só vejo pais ensinando seus filhos a praticar exercícios regulares, a respeitar e ouvir os outros, a comer menos colesterol. Adultos que não pronunciam palavrões na presença dos menores. Lições de ecologia, fraternidade e igualdade por todos os minutos do dia! Crianças aprisionadas entre os limites do certinho e do corretíssimo. Tolices! Contem-me uma piada racista! Digam-me algo execrável, sem sentido, inaceitável! Mostrem-me atitudes injustas preenchidas de sentimentos humanos deploráveis! Qualquer coisa desde que me libertem do politicamente chato. Salvem nossas crianças!
Graças a minha família solidifiquei em mim aquele que se não for o maior, com certeza é o mais verdadeiro dos ensinamentos. O de que o ser humano é dotado de fraquezas, vícios, imperfeições. É falho. Ainda bem! Só algo totalmente correto pode ser mais tedioso que esse esvaziado dia de chuva.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Poutporrit da Rotina

São muitas emoções, momentos que eu não esqueci. Na verdade todo dia eu faço tudo sempre igual e acordo às seis horas da manhã. Vou no cabelereiro, no esteticista, trabalho o dia inteiro, tentando a tal pinta de artista.
Ah se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho tanto pra contar, dizer que aprendi. Brindo a casa, brindo a vida, meus amores, minha família. A paz invadiu o meu coração, mas se me provocar pode vir quente que eu estou fervendo. E depois me desculpa o auê, eu não queria magoar você.
Vida louca, vida breve. A gente mal nasce começa a morrer. Sei lá, sei lá. Se é loucura então melhor não ter razão. Um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera?Não mesmo!Eu vejo o futuro repetir o passado!Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou...mas ninguem tinha escutado. Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio "confia em mim". E eu sigo reclamando, que país é esse?
Ô abre alas que eu quero passar. Que solidão, que nada, eu preciso é ser amada, eu preciso é ser feliz. Felicidade brilha no ar como uma estrela que não está lá. Amor I love you, amor I love you...e eu não sei em que horas dizer, me dá um medo, que medo... E ironicamente, só porque eu não curto nada de axé, é Ivete Sangalo quem canta no meu final. Eu faria tudo pra te ter aqui mas o dia vem e deixo você ir.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Divagações de PS - "Os comas"

Em seu leito ele descansa. Através do tubo o ar penetra passivamente. Já não precisa de nada exterior. Os olhos fechados olham para dentro. Psiu!Silêncio!Diz o aviso no corredor. Ele não pode nos ouvir mas talvez esteja se escutando.Segue em coma induzido de glasgow menor que cinco.
Em seu sofá ele repousa. O ar penetra ativamente pelas narinas sem que ele se dê conta. Os olhos abertos olham para fora. Cores, ruídos, sabores. O silêncio por dentro só às vezes interrompido pelo som grave e seco do estômago. Ruídos articulados pelos lábios são a esperança de uma atividade interna. Que nada!Ecos!Segue desavisado em coma acordado não diagnosticado.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

AVATAR

Sim, eu também fui assistir. Avatar é o filme do momento. Fui logo na versão 3D. Uma grande festa tecnológica. Efeitos gráficos, especiais, visuais, cores de todas nuances,lindos cenários, tudo grandioso!
E o roteiro?É de vomitar. Um festival de clichês. O bem contra o mal. O homem mau ambicioso destruindo a natureza. Americanos vilões e americanos heróis mas sempre superiores a qualquer outra civilização mesmo que interplanetária. Só eles tem poder para destruir e só eles podem te salvar!
Pensar que algo tão desprovido de profundidade e valor artístico move multidões aos cinemas nas mais diversas partes do mundo me faz ficar num estado depressivo. O ser humano orgulha-se de ser pensante mas passa a maior parte do tempo recusando-se a pensar. Talvez o longa seja premonitório. Um futuro de seres acriativos conectados a chips e totalmente imersos em perspectivas concretas. Um futuro desanimador.
Vou tentar o filme da Sasha, O Mistério da Feiurinha, são grandes as chances do roteiro baseado no texto de Pedro Bandeira ser um pouco mais complexo.