quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Confissões de uma mulher de trinta


Quantas vezes observando as pessoas me senti como uma criança no zoológico olhando para a jaula dos macacos.O que eu não entendo é porque eu desejei tanto ser um daqueles macacos.Talvez a jaula tenha me parecido acolhedora.Eu estava tão sozinha do lado de fora...
Num determinado momento da minha vida resolvi entrar na jaula e agir como uma macaca.Parecia fácil emitir ruídos e jogar bananas nos outros.Não foi tão simples.Todos notaram que eu era uma macaca bem estranha.E eu continuava sozinha.Minha única alternativa foi estar fora da jaula novamente.
Eu fico pensando... e se por acaso eu tivesse nascido boi? Será que eu me questionaria como tal? Será que eu seria um boi deslocado a vagar tomado por uma sensação estranha pelos pastos? A pensar, "acho que não era para ter nascido boi" ou "esses bois ruminam demais, defecam demais...e eu também porque eu sou boi, que estranho!"
Pois eu confesso o meu segredo mais inconfessável:eu me estranho como ser humano.
Uma sensação como daquele dia em que você não está muito feliz mas era para você se sentir feliz naquele dia porque é assim que os seres humanos se sentem num dia como aquele.
Muitas pessoas me perguntam porque eu faço teatro. Não entendo bem o motivo da pergunta uma vez que elas mesmas já respondem, "você quer entrar na Malhação". Mantenho só um sorriso amarelo. O teatro humaniza. Quem sabe se eu me deixar perder em outros universos eu possa um dia me achar no meu.
Hoje,aos trinta anos,não posso dizer que sou feliz.Nem infeliz.Não sou macaco.Sou humana.E isso me basta.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ai que medo da classe média!

Que se case com algum marido.Com quem se tenha uma vida sexual ou não,mas algum marido.E que desse marido possam sair filhos,aparentemente saudáveis,para que nunca falte companhia nos almoços de domingo.E que esses almoços possam ser,pelo menos uma vez ao mês,numa boa churrascaria rodízio.E que falemos da novela e das pautas do Fantástico.Que se tenha um carro do ano,melhor do que o do colega de trabalho.E uma boa semijóia para usar nos dias de festa.E que façamos sempre os mesmos comentários considerados adequados para que não nos achem fúteis ou ingênuos.Que o Chico Buarque é um gênio e o Paulo Coelho não presta.Que o Galvão Bueno é ruim e a Veja manipula as notícias.Que o Dunga não soube escalar o time e o Maradona é odiável.Que Avatar é um filme ma-ra-vi-lho-so.E que nenhuma banda vai superar os Beatles!E o mais importante,aconteça o que acontecer,escrevamos sempre no MSN "muuito felizzz",junto com uma carinha sorrindo é claro,para mostrar aos outros como somos realizados!
Ai que medo da classe média!Não me refiro a questões socioeconômicas.Falo dessa superficialidade,essa falta de alma.O espírito de classe média.Temo muito ser assombrada por ele.Os filmes de zumbis são ótimas metáforas.Seres apáticos que se arrastam,sempre em grupos,tentando devorar e destruir o que sobrou de vida.
Eu não sonho apenas com marido,filhos, carreira estável e churrascarias.Eu sonho ser viva.Que eu possa saborear todas as emoções e misturá-las todas.Que eu sangre de alegria e gargalhe de dor.Que eu descubra coisas novas e velhas.Que os outros me surpreendam e eu surpreenda os outros.Que eu respire todos os ares, enxergue todas as paisagens e me alimente de todas as artes.Que eu consiga me preencher na solidão para me esvaziar na multidão.Que eu quase exploda de tanto pensar e sentir!
Não me incomoda uma média conta bancária.Minha ambição é da alma.Minha alma não quer ser de classe média.Ela quer ser rica, muito rica.Milionária,aristocrata.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O pior dos pesadelos

Eu tive um pesadelo horrível. Sonhei que acordei presa num corpo que falava e andava. Fui obrigada a viver anos dentro dele. Como não havia outro jeito, acabei me acostumando, até que descobri o pior. Aquele corpo era provisório assim como todos os outros que vagavam comigo. Cedo ou tarde, ele desapareceria. Simplesmente deixaria de existir. Eu sofria sem saber qual seria o meu destino.Surgiria em outro corpo? Não surgiria nunca mais?
O mundo onde eu vivia era todo efêmero. Assustador. Tudo e todos estavam com os dias contados. Só que os outros agiam como se nada soubessem. Fingiam não saber. Talvez não soubessem. Eu tentava avisar mas era difícil...acho que eles só estavam tentando se distrair. Até inventavam algumas explicações para a situação... fábulas sobre um céu e inferno, histórias de um ser todo poderoso...
Eu estava completamente sozinha.Desajustada,perdida.E apesar do cenário confuso e hostil, aquele mundo era tudo o que eu tinha e conhecia. O pesadelo me fazia sofrer mas, uma vez nele, o meu maior medo era acordar.

sábado, 24 de abril de 2010

Da minha viagem a Portugal


O que mais me incomoda nas religiões é a falta de religião delas. Muito comércio, muito cenário, pouca elevação.E essa obsessão por impor uma fé inabalável que tenta subtrair o nosso direito de duvidar. "Duvido,portanto penso", já disse o poeta português. Duvidar é um dom,um sinal da inteligência. E isto pode ser sagrado. Agir como tolo e tentar minimizar a complexidade do universo não pode ser algo sagrado.
Nossa Senhora de Fátima apareceu para três pastorinhos, contaram-me os fiéis a caminho do santuário,com tanta certeza como se tivessem também visto. Será mesmo?Como sabem? Então crianças não fantasiam? Não mentem? Não podem nem mesmo ter ilusões de optica? O que pretendia Nossa Senhora de Fátima ao aparecer numa árvore aos pequenos Jacinta, Francisco e Lúcia? Pensava eu só comigo. Não pude perguntar ou apenas compartilhar meus questionamentos sem ofender os cristãos presentes. Pensar é feio. Deve ser pecado.
Mais emocionante foi, ainda no mesmo país, conhecer o túmulo de Fernando Pessoa no belíssimo Mosteiro dos Jerônimos. Quase me senti uma peregrina como os católicos em Fátima. Que minha devoção seja pela arte, sensibilidade, talento, criatividade, pela inteligência humana acima de todas as coisas. Que se construa um santuário para Fernando Pessoa! E então, só assim, poderão chamar-me religiosa.


"A certeza, isto é, a confiança no caráter objetivo das nossas percepções, e na conformidade das nossas idéias com a realidade ou a verdade, é um sintoma de ignorância ou de loucura. O homem mentalmente são não está certo de nada,isto é,vive numa incerteza mental constante; quer dizer, numa instabilidade mental permanente; e, como a instabilidade mental permanente é um sintoma mórbido, o homem são é um homem doente."

Fernando Pessoa - Idéias Filosóficas

domingo, 11 de abril de 2010

No Meu Universo Particular

Às vezes me dá uma preguiça de viver. Vontade de me ajeitar no quentinho da cama até o dia amanhecer. Por dentro brigo com dragões e anjos. Lá fora é só o São Paulo contra o Santos. Fecho os olhos. Sou eu, ele, um castelo e um cabernet. Abro os olhos. Só eu, ele, uma itaipava e a tv. No meu mundo ele me chama de meu amor. Na minha orelha ele só grita, vamo tricolor!
Da janela vem um dia nublado. No meu leito é só o sol ardendo pelo meu corpo malhado. Tem gente que diz que o importante é viver.Mas nem sempre entendo para quê.
Por que me aprisionar nesse presente, se eu posso ser ainda mais feliz na minha mente.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Um Brinde ao Lado B

Foi um dia qualquer de chuva que me fez refletir sobre minha família. E uma sensação de gratidão invadiu minha alma. Meu pai sempre bebeu e fumou como se não houvesse amanhã. Além de pregar aos quatro ventos que criança precisa apanhar para aprender. Minha mãe nunca preocupou-se com alimentações equilibradas. Meu avô falava a verdade sem limites. Muitas vezes atingindo os sentimentos alheios como uma metralhadora. Já minha avó ensinou-me que o importante mesmo é alegrar os outros. Pode-se mentir deslavadamente desde que se mantenha o interlocutor agradado. Fora os outros integrantes como tios que orgulhavam-se de feitos como votar no maluf e ganhar dinheiro no pôquer. Que tempos bons!Quantas lições! E, acreditem, eu não estou sendo irônica. Que educação boa que eu tive!Todos livraram-me do politicamente correto. Algo raro nos tempos atuais. Hoje só vejo pais ensinando seus filhos a praticar exercícios regulares, a respeitar e ouvir os outros, a comer menos colesterol. Adultos que não pronunciam palavrões na presença dos menores. Lições de ecologia, fraternidade e igualdade por todos os minutos do dia! Crianças aprisionadas entre os limites do certinho e do corretíssimo. Tolices! Contem-me uma piada racista! Digam-me algo execrável, sem sentido, inaceitável! Mostrem-me atitudes injustas preenchidas de sentimentos humanos deploráveis! Qualquer coisa desde que me libertem do politicamente chato. Salvem nossas crianças!
Graças a minha família solidifiquei em mim aquele que se não for o maior, com certeza é o mais verdadeiro dos ensinamentos. O de que o ser humano é dotado de fraquezas, vícios, imperfeições. É falho. Ainda bem! Só algo totalmente correto pode ser mais tedioso que esse esvaziado dia de chuva.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Poutporrit da Rotina

São muitas emoções, momentos que eu não esqueci. Na verdade todo dia eu faço tudo sempre igual e acordo às seis horas da manhã. Vou no cabelereiro, no esteticista, trabalho o dia inteiro, tentando a tal pinta de artista.
Ah se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho tanto pra contar, dizer que aprendi. Brindo a casa, brindo a vida, meus amores, minha família. A paz invadiu o meu coração, mas se me provocar pode vir quente que eu estou fervendo. E depois me desculpa o auê, eu não queria magoar você.
Vida louca, vida breve. A gente mal nasce começa a morrer. Sei lá, sei lá. Se é loucura então melhor não ter razão. Um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera?Não mesmo!Eu vejo o futuro repetir o passado!Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou...mas ninguem tinha escutado. Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio "confia em mim". E eu sigo reclamando, que país é esse?
Ô abre alas que eu quero passar. Que solidão, que nada, eu preciso é ser amada, eu preciso é ser feliz. Felicidade brilha no ar como uma estrela que não está lá. Amor I love you, amor I love you...e eu não sei em que horas dizer, me dá um medo, que medo... E ironicamente, só porque eu não curto nada de axé, é Ivete Sangalo quem canta no meu final. Eu faria tudo pra te ter aqui mas o dia vem e deixo você ir.